Hoje, embarcaremos em uma jornada fascinante pelo primeiro livro do Novo Testamento: o Evangelho de Mateus. Se você já se perguntou como o Antigo Testamento se conecta a Jesus ou como os ensinamentos de Cristo se aplicam à vida cotidiana, Dicas para ler Mateus é o seu guia perfeito. Aliás, este evangelho não é apenas uma biografia de Jesus; é um livro bíblico que revela a identidade de Cristo como o Messias prometido e o Filho de Deus, ao mesmo tempo em que traça o caminho para seus seguidores.
Mateus: A Porta de Entrada para o Novo Testamento
Não é por acaso que o Evangelho de Mateus ocupa a posição inicial no Novo Testamento. Desde a sua primeira frase, ele estabelece laços diretos e intencionais com o Antigo Testamento, atuando como uma ponte crucial entre as antigas promessas e seu glorioso cumprimento em Jesus Cristo. Sua estrutura e organização do ensino de Jesus eram tão eficazes que se tornou o evangelho mais citado e utilizado na Igreja Primitiva.
A autoria de Mateus é tradicionalmente atribuída ao apóstolo Mateus, embora alguns estudiosos modernos divirjam, sugerindo que foi um autor anônimo que compilou o “primeiro evangelho”. Acredita-se que tenha sido escrito entre os anos 70 e 80 d.C., provavelmente em ou ao redor de Antioquia da Síria, com o objetivo principal de alcançar cristãos judeus que já estavam comprometidos com a missão entre os gentios. Isso nos mostra que, desde o início, a visão de Mateus era abrangente, abraçando tanto o legado judaico quanto a expansão universal do evangelho.
A Genialidade Estrutural de Mateus: Narrativa e Ensino Interligados
Uma coisa que fazemos questão de falar aqui nas dicas para ler Mateus: a verdadeira genialidade de Mateus reside em sua estrutura. O evangelho apresenta uma maravilhosa tapeçaria onde a narrativa e os blocos de ensino de Jesus são cuidadosamente entrelaçados. Muitos leitores talvez nem percebam os cinco blocos de ensino que se destacam na história de Mateus (Mateus 5:1 a 7:29; 10:11-42; 13:1-52; 18:1-35; [23:1] 24:1 a 25:46), pois a fluidez da narrativa, que segue de perto o Evangelho de Marcos, muitas vezes os ofusca. Cada um desses blocos de ensino é marcado por uma fórmula conclusiva semelhante: “Quando Jesus acabou/Tendo acabado [de dizer essas coisas/de instruir]”.
A história começa com uma dupla introdução sobre as origens de Jesus e seus preparativos para o ministério público (capítulos 1 a 4). A partir daí, cada bloco que combina “narrativa com discurso” forma um aspecto progressivo da história, todos interligados ao fato de Jesus, o Rei messiânico, inaugurar um tempo de reinado divino. O evangelho culmina com o julgamento, a crucificação e a ressurreição de Jesus, seguidos pela importante ordem dada aos discípulos de levar essa história a todas as nações.
Jesus, o Cumprimento da História de Israel
Mateus se esforça para amarrar a história de Jesus à história de Israel de forma direta e objetiva. Ele mostra que Jesus pertence à genealogia da linhagem de Israel e cumpre todas as expectativas messiânicas proféticas. É notável a frequência (treze vezes) com que Mateus sublinha que certos eventos ocorreram para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas. O ministério e o ensino de Jesus pressupõem a idoneidade da Lei do Antigo Testamento (Mateus 5:17-48), e durante seu ministério terreno, Jesus concentra-se nas “ovelhas perdidas de Israel” (Mateus 10:6).
A Transição da Antiga Aliança
A morte de Jesus é um divisor de águas simbólico para Mateus. O rasgar da cortina do templo em duas partes (Mateus 27:51) não é apenas um evento físico, mas um sinal de que o tempo da Lei, da antiga aliança, chegara ao fim, e o tempo de Jesus e de seus seguidores, da nova aliança, havia começado.
Mateus apresenta Jesus em oposição ferrenha aos fariseus e mestres da lei. Ele se refere às “sinagogas deles” em contraste com seus próprios discípulos (Mateus 10:17; 13:54; 23:34). Isso é particularmente relevante, pois Mateus escreve em um tempo em que a igreja e a sinagoga já estavam separadas e em conflito sobre quem estava sob a verdadeira sucessão das promessas do Antigo Testamento.
Um Messias para Todas as Nações
Apesar de seu forte foco judaico, Mateus também demonstra um claro interesse na missão para com os gentios. Ele inclui quatro mulheres – essencialmente, se não totalmente, gentias – na genealogia de Jesus (Tamar, Raabe, Rute e a esposa de Urias, ou Bate-Seba). O ministério de Jesus começa na Galileia (Mateus 4:12-16), que Mateus vê como o cumprimento da profecia de Isaías 9:1-2: “o povo que vivia na escuridão, na Galileia dos gentios, viu uma grande luz”. O evangelho termina com a Grande Comissão (Mateus 28:16-20), uma ordem para os apóstolos fazerem discípulos de todas as nações (que significa gentios). Essa interconexão de temas revela a intenção de Mateus de mostrar que Jesus é o Messias não apenas para Israel, mas para o mundo inteiro.
Quem é Jesus para Mateus?
A identidade de Jesus é central para o Evangelho de Mateus. Ele é o cumprimento de todas as esperanças e expectativas messiânicas judaicas.
Rei Messiânico e Filho de Deus
Mateus proclama Jesus como o “Rei dos judeus” desde o seu nascimento (Mateus 2:2), e ele é honrado e adorado por figuras monárquicas gentias, os magos. Em seu batismo e transfiguração, ele é explicitamente identificado como o “Filho de Deus” (Mateus 3:17; 17:5; Salmos 2:7). Seu nascimento virginal cumpre a profecia de Isaías 7:14 de que “Deus está conosco” (Emanuel). Ele morre como “O REI DOS JUDEUS” (Mateus 27:37) e é reconhecido como “Filho de Deus” até mesmo por um centurião romano (Mateus 27:54).
Ao mesmo tempo, Mateus também apresenta Jesus como o “servo sofredor” de Isaías (Mateus 20:28), estendendo esse reconhecimento a todo o seu ministério, incluindo suas curas (Mateus 8:17) e a oposição que ele enfrenta (Mateus 12:17-21, citando Isaías 42:1-4). Essa dualidade entre Messias majestoso e servo sofredor é um pilar da teologia de Mateus.
O Intérprete Autêntico da Lei
Mateus é cuidadoso em apresentar Jesus como o verdadeiro intérprete da Lei (Mateus 5:17-48; 7:24-27). Ele contrasta Jesus com os fariseus e mestres da lei, que transformaram a Lei em um jugo pesado (Mateus 11:28; 23:4), impondo fardos às pessoas. Jesus, por outro lado, oferece um jugo suave e um fardo leve (Mateus 11:28-30). Sua “lei” é permeada por misericórdia e graça (Mateus 9:13; 12:7; 20:30,34; 23:23). Jesus não veio para abolir a Lei e os profetas, mas para cumpri-los (Mateus 5:17; 7:12) e para trazer a nova justiça do Reino de Deus, que transcende infinitamente os ensinamentos dos fariseus (Mateus 5:20).
O Discipulado no Reino: Viver como Jesus
Para Mateus, os doze discípulos desempenham o papel de aprendizes que devem servir de modelo de vida no Reino. Aqueles que seguem a Jesus não apenas proclamam o Reino que virá – a chegada da misericórdia divina aos pecadores – mas também são esperados que vivam como Jesus (Mateus 7:15-23). A Grande Comissão em Mateus 28:19-20 instrui os discípulos a fazerem outros discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar o caminho de Jesus, tanto na vida individual quanto nas comunidades eclesiásticas (Mateus 18). De fato, Mateus quase certamente pretende que seu evangelho sirva como um manual para essa instrução.
Conclusão: Um Guia Atemporal para o Reino
O Evangelho de Mateus é, de fato, uma maneira maravilhosa de iniciar a história de Deus no Novo Testamento. Ele nos apresenta um povo salvo por Deus, para o seu Nome, através da morte e ressurreição de Jesus, e enviado ao mundo para levar suas boas-novas, fazendo discípulos de todas as nações e, assim, cumprindo a aliança de Abraão.
Para os leitores de hoje, Mateus oferece não apenas um relato histórico da vida de Jesus, mas um manual abrangente para entender a profunda conexão entre o Antigo e o Novo Testamento, a identidade multifacetada do Messias e o caminho do discipulado que nos convida a viver uma vida que reflita o caráter e os ensinamentos de Jesus, o Rei do Reino de Deus. Estudar Mateus é mergulhar na essência do cristianismo e na própria missão que nos foi confiada.











